Dá pra acreditar que a Milhazes e a Varejão valem tudo isso?

A última notícia bombástica do mercado de arte foi a venda, por mais de setecentos mil dólares, de obras das brasileiras Beatriz Milhazes e Adriana Varejão, em leilão de arte latinoamericana realizada em Nova Iorque. De tempos em tempos notícias assim estremecem a pasmaceira dos jornais, em relação às artes plásticas, e criam no mercado um clima de euforia semelhante à das bolsas de valores, quando dão aqueles saltos.

Francamente, não estou afirmando que há alguma tramóia na origem dessa surpreendente valorização, mas senti uma ferroada atrás da orelha quando li a notícia. Não é segredo que se pratica no mercado certa metodologia feita sob medida para catapultar preços de artistas através de leilões, principalmente quando estes acontecem no exterior. Dada a nossa condição de subserviência também em matéria de cultura, esses súbitos recordes caem como raios por aqui e provocam transfusões de vultosas quantias do bolso dos afobados para o do time organizado. Explico: quando o proprietário de uma obra a coloca em leilões internacionais, no caso da venda se realizar, é pago um percentual (em geral 20%) para a empresa vendedora . Isso quer dizer o seguinte: é perfeitamente possível alguém colocar um trabalho nessas operadoras e ele mesmo comprá-la, utilizando um laranja. Isso lhe custará uma quantia que, logicamente, é perdida. Mas em compensação toda a obra desse artista ganha uma justificativa e um impulso de valorização próximo dos números supostamente alcançados. É o maior tititi.

Esse truque já alterou o mercado e valorizou muita gente por aqui, colocando um ou mais zeros em seus preços praticados anteriormente. Ora, corre no mercado a versão de que essas duas boas artistas brasileiras hoje são apadrinhadas por um pool de investidores (marchands e jogadores financeiros) bastante “comprados” que atuam em grupo para valorizar os seus ativos. Por um lado, perderiam com essa venda algo em torno de 150 mil dólares, por cada artista. Por outro, oficialmente, triplicaram o valor das obras dessas artistas que estão em seu poder, desencadeando uma bela plus valia no videogame dos cifrões.

English

Do we really believe Milhazez and Varejão are worth this much?

The last mega news to shake the art market was the sale for a mere seven hundred thousand dollars of the works of Brazilian artists Beatriz Milhazes and Adriana Varejão at an auction of Latin American art in New York City. Once in a while news like this still rattle the otherwise bored media in the world of fine arts and create euphoric market climates similar to the ones created by stock market spikes.

Honestly, I am not implying there is anything wrong with this amazing value added trend but I felt uneasy when I read the news. It is no big secret the method and the practice tailor made to jetsam an artist’s value through auctions, particularly when it happens in markets outside your own country.  And given our predilection to servitude, herein included cultural servitude, the sudden spikes strike like lightening causing massive cash transfers from the pockets of the hasty ones to the pockets of the organized ones.

And I explain: when the owner of an art work places it at an international auction a percentage (usually of 20%) is paid to the selling agent. Which means it is perfectly possible for someone to place a work with one of the selling houses and buy it back through a surrogate buyer. This will cost a percentage fee, of course. On the other hand that artist’s work gains a momentum and his work may fetch the value originally suggested. It is a great commotion…

This trick has already changed markets and valorized many around here placing one or more zeros to initial offering prices. Alas, there is market rumor circulating that says these two good Brazilian artists have godparents in a pool of “sold out” investors that include marchands and financial dealers – and that they act as a team to enhance their own portfolios.  On one hand they may lose around US$150 thousand for each artist with each sale.  On the other hand, however, they quite officially triple the value of the works of these artists they may own – unchaining a beautiful value added momentum to the videogame of numbers.

O Defunto Era Menor

Alcides Pereira " Bichos" 

Há um discurso recorrente de curadores a serviço de um esquema monopolista  no mercado de arte popular insistindo em que esta tem de ficar sob o guarda-chuva protetor do movimento contemporâneo, se quiser ser aceita, sacralizada, e valorizada no alegre festim que parece animar atualmente os negócios.

Alguns nomes conhecidos, tanto de curadores, como de artistas, passaram a oferecer carona para os mestres populares. Bem, é preciso corrigir, nem todos os ungidos são mestres. Outro dos objetivos dessa marquetagem é glamurizar alguns artesãos menores através de curadorias supostamente especializadas, bulas laudatórias, e alta dosagem  midiática..Esses formadores de opinião explicam, por A + B, que estamos frente a frente com um Michelangelo caboclo, um artista inaugural, uma tremenda descoberta, embora diante de nossos olhos se apresente apenas um pedaço de pau, uma raizama insignificante , um pouco canhestra e sem jeito em  sua tentativa de ancestralidade e minimalismo.

Nossa opinião é que essa comparação com os contemporâneos é um equívoco e não engrandece nem um pouco os populares, cuja expressão é algo direto, visceral, uma arte que cada vez surpreende mais por sua excelência, fruição e extrema liberdade — em contraste com boa parte da arte contemporânea, crescentemente incompreensível, subjetiva, enredada em fórmulas, e distanciada da capacidade de entendimento da humanidade comum.

Para os comensais desse animado jantar, os artistas populares não estão com roupa adequada para se sentar à mesa. Segundo o catecismo monopolista e o credo de certos curadores, a Arte Popular não tem força para se impor sozinha, precisando entrar de mãos dadas com as figuras carimbadas do circuito.

Para nós é exatamente o contrário.

A tentativa de arranjar às pressas uma roupa emprestada para que os novos postulantes  possam franquear a severidade dos seguranças e se acomodar à mesa, falha na medida em que talvez não tenham vestido as roupas certas. Há uma expressão corrente que diz “o defunto era maior” quando alguém se apresenta mal ajambrado, em indumentária maior do que o seu manequim.

No caso, pior ainda, o defunto é menor.

Tem ouro nesse garimpo

A Brasiliana coloca mais de 100 obras em oferta para este final de ano. Tem coisa muito boa nesse lote: litos de Fiaminghi e serigrafias de Mauricio Nogueira Lima (fase Pop), desenhos de Nilson Pimenta, miniaturas de Willi, pássaros da Ilha do Ferro e  Juazeiro, muita escultura, muito quadro, muita cerâmica, artesanato. Venha dar uma conferida. Não é liquidação, mas os preços até que parecem.

There’s gold in here

The Galeria Brasiliana offers more than 100 selected pieces for the Holidays.  There is a lot of good stuff in this parcel:  lithographs by Fiaminghi, engravings by Mauricio Nogueira Lima in his Pop phase, drawings by Nilson Pimenta, miniatures by Willi, birds from the Ilha de Ferro and from Juazeiro, lots of sculptures, paintings, many ceramic pieces, crafts.  Come in and check it out.  This is not a sale but the prices are true bargains.

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Oportunidades e oportunismos

O presidente Sarkozy está com seus índices de popularidade em baixa. Nem mesmo o terremoto do Haiti ele aproveitou para mostrar uma imagem de estadista. A França tem obrigação moral de ajudar no soerguimento do infelicitado país, pois ninguém ignora que é diretamente responsável pela situação, tendo forçado o Haiti a pagar uma divida tão imensa pela independência, que demorou um século para ser quitada e o jogou na miséria que hoje conhecemos.

Mas Sarkozy, o falastrão, tendo desprezado essa oportunidade histórica de redenção, resolveu faturar em cima de Albert Camus, cujo centenário de nascimento se aproxima. A idéia era levar os restos mortais do escritor, falecido em 1960 num desastre de automóvel, do túmulo ocupado na cidade de Lourmarin para o Panthéon de Paris, onde descansam os ossos de vários heróis nacionais. Não contava ele com a resistência do filho de Camus, Jean, que não apenas rejeitou o projeto, como declarou, alto e bom som, que o escritor, se vivo fosse, certamente estaria na oposição ferrenha ao atual ocupante dos Champs Elysées.

O assunto levou-me à reflexão de que no campo da arte brasileira também tenho assistido a várias jogadas promocionais que sempre acabam por encontrar guarida na nossa desavisada imprensa, sem que ninguém profira uma só palavra de discordância.

Um conhecido pintor popular, dotado de bastante talento, em determinado momento de sua carreira inventou de pintar uma Nossa Senhora de minissaia. A irreverência, divertida e inteligente, provocou polêmica e bombou sua imagem nos meios de difusão. Provavelmente embalado com o Ibope, logo depois ele se deixava fotografar em um caixão, postado na sala de sua casa e onde supostamente costumava tirar uma soneca, numa demonstração da excentricidade que muitas vezes acompanha os gênios. Um bom aluno de Dali, por certo. O tempo passou e a estrela do pintor foi diminuindo de intensidade na exata medida do interesse por seu trabalho.Era necessária alguma coisa nova para espicaçar a galera. Veio o 11 de setembro e em seu cavalete os aviões voltaram a atacar as Torres Gêmeas. Mas o impacto foi mínimo. Em seguida veio o mensalão e o pintor colocou em pratica novo plano. Com exposição marcada num hotel da capital paulista, que tinha entre seus hóspedes inúmeros políticos em transito pela cidade, resolveu exibir uma série de trabalhos, ridicularizando os deputados. Num gesto de autodefesa, a direção do hotel vetou a mostra e o autor protestou que estava sendo censurado, que isso e aquilo. Desta vez só um jornal o levou a sério. No mercado o episódio foi tratado como apelação, golpe publicitário, e o efeito foi mais deletério do que benéfico para o pintor.

Outro mestre no que poderia ser denominado“marketing da tragédia” é um renomado pintor que, apesar do visível desgaste de sua obra atual, ainda tem apreciadores, principalmente entre os galeristas da cidade. Aquele triste assassinato de um índio pataxó, incendiado por filhinhos de papai em Brasília, foi aproveitado com eficiência por ele. Indignado, imediatamente colocou em cena um trabalho de protesto. A mídia toda noticiou, no bojo da comoção que abalou o país. Houve o episódio dos 111 mortos na Penitenciária de SP, oportunidade de ouro para nova carona na mídia. Com grande alarde, ele deu sua inestimável contribuição para a conscientização da sociedade fazendo uma instalação cheia de veemência e discurso condenatório. Volta e meia ele reaparece. Não faz muito retornou às manchetes avisando o mundo que estavam falsificando seus quadros. Hoje, também o seu prestígio sofre uma acentuada erosão. Por isso tenho dúvidas se esses episódios trazem benefícios duradouros para a imagem de um artista, apesar dos efêmeros holofotes. Na maioria das vezes tentam mascarar a decadência da obra. Há ainda o perigo de que a oportunidade seja confundida com oportunismo e o tiro acabe saindo pela culatra.

O SESC também erra

Todo mundo tem consciência da importância das atividades levadas a cabo pelo Sesc, em particular pela seção de SP da entidade. Mas tem uma atividade onde o Sesc ainda não acertou a mão, apesar da insistência e dos recursos que investe. Refiro-me à Bienal de Naifs, que tem lugar em Piracicaba, instituída nos anos 70 por um professor de geografia, funcionário da entidade.

Lembro-me bem dele, quando promovia eventos através da Ação Cultural da unidade de Bauru e nossos caminhos se cruzaram em Assis, SP. José Nazareno Mimessi, que dá nome ao Museu da cidade, entusiasta da arte popular, na época conhecida como “primitiva”, recebeu ajuda desse funcionário para criar um Salão de Arte. Nazareno era carente de recursos e a ajuda de uma instituição tão poderosa era garantia de êxito. Foram realizados 2 ou 3 salões, que pouco acrescentaram aos objetivos de Nazareno. Mas acabaram por fornecer ao representante do Sesc uma valiosa ferramenta. Nazareno se correspondia com muita gente no Brasil e tinha um banco de dados impressionante. Muitas vezes me falou nessa idéia de criar uma de Bienal de Primitivos, mas nunca me entusiasmei. Sabia que não havia tantos artistas assim para movimentar um certame de 2 em 2 anos, e fatalmente a coisa descambaria para a admissão de maneiristas e imitadores. Mas, se para mim a idéia não era sedutora, essa era a oportunidade de ouro para o tal professor subir na hierarquia da entidade. Brandindo a pesquisa como se fosse ele o autor, após ter tido acesso ao banco de dados, a idéia foi aceita, e o SESC mobilizou os seus recursos no desenvolvimento do projeto. Na seqüência, o funcionário, autonomeado curador, “comprou” o nome de “arte naif” para rebatizar os artistas populares. Essa denominação, contribuição de 2 marchands francófonos no mercado de arte, causou-me acidez estomacal desde que a ouvi pela primeira vez. Pra começar é absurda gramaticalmente, pois faz sentido em francês e espanhol usar o adjetivo naif, forma masculina, pois arte nesses idiomas é também um substantivo masculino. Mas arte em português é feminino, e assim teriam de ter chamado a coisa de arte naive, como acontece com a língua alemã (naive kunst) e inglês (naive art). Mas se naif quer dizer ingênuo, me perguntava, não era descabido utilizar um galicismo para denominar uma coisa tão nossa, tão da alma de nosso povo, tão de nossa identidade? Sempre achei um conceito malintencionado, pois pretendia colocar na mesma cesta todos os que trabalhavam determinado estilo, independentemente se eram bons ou maus autores.Mas o pior é que, por falta de conhecimento do curador, (ou talvez propositalmente, quem sabe?) a bienal tornou-se uma vitrine para os oportunistas, os pintorecos e os que precisavam aparecer e não tinham obra qualificada, na maioria das presenças que se tornaram constantes nesse certame. E assim vem acontecendo repetidamente a cada 2 anos. O que poderia ter sido uma excelente abertura para o incentivo de novos valores, tornou-se objeto de estranhas manipulações que privilegiaram galerias, pintores sem qualificação e personagens excusos. Poucos foram os nomes novos com obra importante que ali foram distinguidos. E a maioria dos grandes artistas populares, ou não foi convidada, ou não se interessou. De uns tempos para cá, aposentaram o professor de geografia, mas parece que sua sombra ainda paira sobre a organização da bienal. O SESC, por alguma razão, insiste em continuar o projeto e tem-se esforçado por melhorá-lo. Os novos responsáveis passaram a chamar para salas especiais, curadores mais qualificados, como o último, que foi tocado por Olívio Tavares de Araújo. Neste, até mesmo nós comparecemos. Pela primeira vez fomos chamados e emprestamos obras de Alcides Pereira e Ranchinho.

Mas essa Bienal terá que encontrar outros caminhos. Com a abertura do Pavilhão das Culturas, no prédio da Prodam em SP, que reunirá um grande acervo de arte popular e poderá ter uma programação consistente nessa linha, não há mais qualquer justificativa para o Sesc continuar a desperdiçar dinheiro com um evento que nada acrescenta, muito pelo contrário.

O beijo de Rita Lee

Um beijo atirado por Rita Lee foi decisivo para minha opção pela carreira de marchand.

No inicio dos anos 70, com 28 anos, separado e 2 filhos para criar, vi-me num dilema. Havia deixado uma carreira de repórter na Quatro Rodas, passara para a CIN, hoje Leo Burnett e de lá fora rapidamente contratado pela Standard Propaganda. Um anúncio polêmico que criara, comentado pela Veja, levou-me a uma entrevista com o poderoso Livio Rangan, diretor de comunicação da Rhodia. Com a saída de Roberto Duailibi, o cargo de redator estava vago e ganhei o emprego: escrevia para revistas, fazias anúncios, transitava em meio a lindas modelos e ganhava um bom salário. Fiquei intimo do pessoal da Tropicália, em especial do poeta Torquato Neto. Tudo ia bem, exceto por um detalhe: o volume de trabalho era tremendo. E tudo sempre em cima da hora. Acabei por me incompatibilizar com o chefe e pouco depois, decidi que não queria seguir na publicidade. Gostava muito de arte e de música, e via por ali novos rumos profissionais.

Woodstock havia causado um tal impacto, que muitos pensaram em fazer um festival no Brasil, em plena ditadura. O cantor Richie Havens, esteve por aqui e o guitarrista de seu conjunto, Eric Oxendine, garantiu a um casal de amigos meus que conhecia gente chave nos EUA e muitos nomes internacionais viriam para cá por cachês pequenos, só pela curtição. Doido por uma viagem internacional, embarquei para NY ao encontro dessa quimera. É claro que tudo não passou de um sonho irrealizável.

Na volta fiquei conhecendo Cláudio Prado, recém chegado de Londres e cheio de projetos ousados. Achamos que seria uma ótima idéia excursionar por cidades brasileiras com os Mutantes, filmar tudo em super 8 e prensar um LP . Arrumei com um piloto de corridas um ônibus munido de deck na cobertura. A primeira performance foi realizada em SP. A apresentação foi sensacional, os Mutantes eram realmente eletrizantes. Lá pelas tantas, Rita Lee, com quem eu nunca havia trocado uma só palavra, me envia um beijo, a mim, sempre tão tímido e caladão. Achei um barato, mas a coisa acabou ali. Dias depois, num encontro de toda a equipe, Arnaldo Baptista, de forma peremptória, apontando-me o dedo e sem qualquer motivo explícito, declara que não me queria no esquema. Fiquei mudo e pasmo. Diante do silencio geral, levantei e fui embora, já que palavra alguma havia sido proferida em minha defesa, por qualquer dos presentes. No dia seguinte liguei para o piloto, que mandou imediatamente buscar o ônibus. Fim da viagem. Ainda participei, com outro grupo, de apresentações de Ravi Shankar e João Gilberto, inclusive do show que trouxe de volta Caetano, exilado em Londres, e promoveu o histórico encontro entre ele,João e Gal.

Nessa época eu travara relações com Franco Terranova, com quem colaborei uns meses, e depois com o marchand Ralph Camargo com quem vim a trabalhar mais de um ano. Nesse ponto, enquanto os olhos se deslumbravam com o universo visual, o apaixonado por música se tornava apenas ouvinte, convencido de que aquele caminho provavelmente nunca o levaria a lugar algum. Só recentemente, ao assistir ao belo documentário sobre o Arnaldo, o “Loki”, finalmente compreendi as razões de sua atitude: um gesto de ciúme e desatino pela bela Rita, paixão que quase o levou à morte — e que acabou decidindo meu destino.

Daumier e Rodin, duas atitudes.

A única ocasião em que visitei um museu e na saída tive vontade de pedir a restituição do valor da entrada foi em Paris, quando, embalado pelos escritos de Rilke sobre Rodin, de quem foi secretário, fui conferir a obra do renomado escultor.

Sei que vou causar espanto e mesmo indignação ao mostrar decepção a respeito de um ícone da arte internacional,cuja exposição na Pinacoteca provocou filas, suspiros e babados e até mesmo levou, tempos depois, à instalação de uma pequena filial em Salvador, num projeto polêmico e muito comentado na cidade, iniciativa de Maria Lucia Montes, que até há pouco tempo era o braço direito de Emanoel Araújo.

Ainda inconformado com o desapontamento sofrido em Paris, insisti em rever o trabalho de Rodin no Museu de Belas Artes de Buenos Aires e mais recentemente, percorrendo minuciosamente todos os espaços da National Gallery, em Washington DC, dou de cara com uma penca de seus bronzes e mármores. Depois de ter visto Bernini, nesse mesmo museu, depois de tantos exemplos da estatuária greco-romana, e até mesmo tomando contato mais direto com Houdon — em minha opinião um dos precursores da fotografia — só senti crescer a primeira sensação : Rodin é um acadêmico chato, pomposo, cerebral, mero virtuose. Em minha cesta de “invenções do mercado” poderia fazer companhia a Andy Warhol, Vasarely, Polock, Duchamp, Amílcar de Castro, Vik Muniz e tantos outros.

A National Gallery, entretanto, reservava-me uma inesperada revelação. Entre uma sensação de enfado e uma ponta de irritação em relação a Rodin, vi, numa sala próxima, uma vitrine repleta de pequenos bustos que mesmo de longe como que pulsavam, magnéticos, transbordantes de energia expressiva. Estou frente a frente com dezenas de pequenos bustos feitos por Honoré Daumier na década de 50 do XIX, retratando os membros do Parlamento francês. Ao lado uma informação esclarecia que esses bustos provocaram um escândalo tão violento que Daumier foi preso, enfrentou mais um processo em sua carreira, e as obras foram proibidas, só sendo permitido virem a público 70 anos após o falecimento do último dos retratados. Cito de memória, mas era algo no gênero. Ali estava exposto, nua e cruamente,o que Daumier conseguira transmitir sobre aqueles políticos: a desonestidade, a ambição, a vilania, a desumanidade, a falcatrua, a dissimulação que lhes ia na alma. Lembrei-me de um conto de Henry James, chamado “O Mentiroso”, onde um pintor também capta a essência do retratado, e cuja esposa, ao perceber a revelação, invade sorrateiramente o atelier e destrói a obra. No dia seguinte voltei ao National só para rever Daumier.

Ali estavam, lado a lado, duas maneiras de viver o papel do artista. Rodin, o amigo dos poderosos, o carreirista, o burocrata da boniteza e do efeito. E Daumier, o defensor das causas justas, o ativista que enfrentou tantas vicissitudes em sua vida, que nunca vacilou sobre o caminho a seguir e pagou um alto preço por isso, como pagaram Fourier, Rimbaud, Maiakovski, Marx, Bakunin.

Não à toa Van Gogh, outro santo da minha igreja, apreciava tanto Daumier e via em sua obra algo muito profundo, novo, revelador, que não podia ser chamado simplesmente de caricatura.

Crônica de uma bolha anunciada

Não é preciso entender muito de economia para saber que estão em formação algumas bolhas que podem estourar ao menor vacilo da economia brasileira. Recebo na web ofertas de imóveis em relação às quais a única atitude sensata seria chamar a polícia. Uns predinhos feios, outros devidamente maquiados (imagino o custo do condomínio), a preços que ferem o decoro. Compra-se um automóvel hoje com prestação de R$ 300 por mês. Você adquire um apartamento em 30 anos e já ganha, por generosidade da construtora, a cozinha — e dependendo do valor, também o carro na garage. Novos e amplos horizontes para a Petrobrás e o Ptbrás, que cada vez têm mais dinheiro em caixa para gastar. Pouco importa se a poluição decorrente vai à estratosfera, se as nossas cidades já têm trânsito em estado crítico, se as estradas se esgoelam por socorro. Vamos em frente. Après moi le deluge.

Enfrentamos uma situação não muito diferente no mercado de arte. Manobras secretas empurraram os valores de artistas como a Milhazes, a Varejão, o Oiticica , a turma dos concretos, para algarismos que não dá para ouvir sem estar sentado. Engasgo ao saber o quanto pedem por aquelas réplicas de Matisse e Picasso feitas em pó de veludo pelo Vik Muniz. Como é bom ser fashion e contemporâneo! Esgotado o conteúdo das sopas Campbell, há toda a historia da arte para fornecer newlooks. E castelo de revista para cenário de novos contos da carochinha.

Fico imaginando o que vai acontecer no futuro com aqueles rabisquinhos, aquelas letrasets de Mira Schendel, e pelos quais se pedem 2 e, imagino logo mais, 3 dígitos. Terão o mesmo destino das pombinhas bicadoras de Dacosta? Farão companhia aos Bonadeis a respeito dos quais nos bons tempos se falava de boca cheia em dezenas de milhares de verdinhas? Acalentarão no colo os bichanos de Aldemir? São perguntas que ficam no ar, como a relevância de certos nomes que hoje tanto mexem com a libido da galera.

O mercado de arte parece ter contratado 2 personagens das HQ : o Professor Pardal e o Mandrake. O primeiro inventa num piscar de olhos novos nomes para a arena. E o mágico, num simples gesto, refaz preços e posições. Porquê isso acontece? Porque há um monte de gente com muito dinheiro, nervosa por depositá-lo em alguma coisa. Como arte é símbolo de status, precisa-se de grifes para demonstrar o peso da conta bancária. E grana é o idioma mais falado no mercado dos top de linha.

A bola da vez é Burle Marx, um artista que é referência como paisagista, mas cuja obra plástica provocava raros frissons, embora tenha mantido sempre um nível entre o médio e o bom e por vezes até surpreendesse com alguma obra fora do padrão. Num ato de legítimo sobrenatural virou capa de leilão, objeto de retrospectiva. Um ícone que ninguém havia percebido ser gênio, e que agora um grupo, num transe coletivo, decreta ter chegado a hora da canonização. Desconfio que o próximo será Roberto Magalhães.

As pessoas estão comprando por ouvido, não pelo olhar.

Podem vir a lamentar-se muito quando se derem conta de que arte é para ser adquirida com sensibilidade e informação, e se for para pensar em números, é preciso detectar a qualidade da obra, e em conseqüência, seu valor intrínseco. E não são propriamente o currículo, os elogios dos escribas de aluguel, ou o emprego avassalador de todo os truques do márquetim, que vão ditar as regras do jogo.

Como disse Merleau-Ponty, “as grandes obras constroem sua própria posteridade”.

Consanguinidade, um mal que aflige a Arte

É muito comum um artista ou um movimento artístico tornarem-se de tal maneira dominantes, que acabam por se transformar em padrões seguidos por muitos criadores, engessando sua produção.

Esse comportamento pode atingir todas as linguagens.

Uma vez estive no Rio Grande do Norte, onde a obra de referencia era a de um pintor chamado Dorian Gray. Não havia um só artista na cidade que não procurasse imitá-lo. Aliás, é filme visto repetidas vezes no passado. Teruz e Bianco, por exemplo, foram de tal maneira afetados pela presença forte de Portinari, que nunca mais recuperaram sua própria identidade. O movimento artístico brasileiro, impulsionado pela Primeira Bienal de SP, pela presença avassaladora de Max Bill, até hoje persiste em mostrar uma face marcadamente construtivista, que não arreda pé de jeito nenhum. Nada contra esse movimento, esclareço. Apenas não lhe atribuo a importância de que goza no meio crítico e no mercado. Com exceção da obra de Volpi e Ivan Serpa, acho quase tudo meio repetitivo, óbvio, cerebral. A Coleção Adolfo Leirner, vendida por preço surpreendente a uma instituição americana, não deixa dúvidas sobre o apreço que no exterior se atribui à arte que, no fundo, reflete a desses centros.

Este é um assunto sobre o qual voltarei oportunamente. Agora quero apontar o que acontece presentemente com um importante movimento nascido nos anos 70 e que produziu uma série de artistas de grande interesse. Em Cuiabá, por influencia da notoriedade conseguida pelo artista Humberto Espindola, premiado na Bienal de SP, despontou na cidade uma febre por arte. A Prefeitura, em conseqüência, montou um atelier livre, assessorada pelo pintor e

sua esposa, Aline Figueiredo, historiadora e pesquisadora de arte. Chamada para orientar os interessados, a excelente pintora Dalva de Barros mostrou que possuía também uma rara qualidade: conseguia aprimorar estilos e talentos latentes em seus jovens alunos, sem transformá-los em filhotes. Em pouco tempo um vigoroso e inovador grupo provocava a admiração de P.M. Bardi, Aracy Amaral, Olívio Tavares de Araujo. Alguns de seus integrantes tornaram-se celebridades. Adir Sodré, que surgiu como um pintor“naif” notável aos 14 anos, logo ampliava seus horizontes e ganhava prêmios, expunha individualmente em museus e se projetava internacionalmente. Entre outros encantados com seu trabalho, Gilberto Chateaubriand, o maior colecionador privado do Brasil. Nilson Pimenta, um criativo artista popular, foi outro que logo se tornou nacionalmente conhecido. O Atelier Livre foi encampado pela UFMT e começou a atrair novos interessados. Nilson Pimenta substituiu Dalva de Barros como professor. Já lá se vão 3 décadas que esse movimento se amplificou de tal maneira, que extravasou para as ruas, intrometeu-se nas laterais de ônibus, ocupou paredões, viadutos e muros da cidade. Mas agora não dá mais para ignorar os sintomas: a arte cuiabana envelheceu, perdeu parte do vigor, à força de repetir-se, de enredar-se na consangüinidade, por assim dizer. Todos se influenciam, desenvolvem temas análogos, usam as mesmas cores. Nas galerias, museus e espaços institucionais da cidade sapo de fora não chia. A arte local ficou sufocada pela falta de outras referencias. Da mesma forma que em biologia a consangüinidade acaba por acelerar a decadência de uma espécie, a arte de Cuiabá clama por sangue novo, pela renovação que restaure sua inequívoca vocação.

Bichos e poetas no metrô

Sou usuário do Metrô, pois moro próximo da estação Clinicas e já vi inúmeras exposições no comprido corredor de acesso, onde pessoas costumam passar apressadas, quase sem notar que nas paredes e colunas centrais muitas vezes podem ser vistas obras importantes, superiores mesmo às que constituem o acervo de muitas de nossas galerias comerciais mais badaladas.

As mostras de fotografia, principalmente, despertam a atenção e são as que mais convidam as pessoas a parar e apreciá-las. A última delas levou-me a refletir sobre o papel educativo que a publicidade poderia desempenhar em nosso país – e não o faz. Acho que não há quem discorde da evidência de que um dos mais sérios problemas do país é a educação deficiente, que condena ao atraso, à violência e à alienação grande parte dos brasileiros.

Enchi a geladeira da família por um breve período de minha vida como redator publicitário — e deixei a profissão, não apenas porque era estressante, mas porque nela não cabia o livre arbítrio, nem a crítica, e muito menos a reflexão e a cidadania. Sempre que ouço esses ícones da propaganda e do marketing com egos inflados e ar de sabichões, constato que não vislumbram na profissão outra função além de ganhar dinheiro, aumentar faturamentos. Nada contra esses dois objetivos, quero esclarecer. Mas há outros aspectos a serem considerados. Pensemos um pouco, por exemplo, nas propagandas de cerveja, que tanto promovem o erotismo e o hedonismo barato. Por que não poderiam ajudar a conscientizar as pessoas a não dirigir embriagadas? Ou a propaganda de automóveis e o mundo da moda, as empresas de telefonia, tão ricas, que nada fazem além de vender a ilusão da felicidade e o consumismo imediato. Que poder educativo extraordinário teriam em mãos!

Talvez eu seja apenas um cândido otimista quando manifesto a esperança de que as formas de comunicação de nosso sistema poderiam ter algum papel no sentido de devolver alguma coisa à sociedade, além de fazer girar a roda da economia. Desconfio inclusive que teriam um ótimo retorno em seu objetivo de vender mais, se o fizessem usando modos que dessem algum retorno à coletividade. A campanha de reciclagem aberta ao público feita pelo Pão de Açúcar, por exemplo, é útil e ajudou o grupo a desfazer-se da imagem de supermercado caro e elitista., trocando-a pela de uma empresa responsável, moderna e preocupada com a cidadania. Imagino campanhas para incrementar o respeito pelas faixas de pedestres, que mostrassem que as ruas não são lata de lixo, que conscientizassem sobre os malefícios da poluição sonora, que incentivassem a leitura, enfim, atitudes que ajudassem a incutir na cabeça de todos o respeito pelo outro, o conhecimento, o orgulho de vivermos num país civilizado.

Por isso foi com muita simpatia que vi a iniciativa da Pepsico, através de seu produto snacks Fandango, ao patrocinar a mostra Bichos do Zôo na estação Clinicas. São 19 painéis mostrando animais de nossa fauna, em seu habitat, acompanhados de informações pertinentes sobre cada um deles. Bela e valiosa mensagem sobre a natureza, sobre seres ameaçados de extinção, sobre os tesouros biológicos guardados em nossas matas. De 10 de fevereiro a 29 de maio as estações República, Clinicas e Paraíso mostram as fotos de Ricardo Martins e os textos do biólogo Cláudio Correa. Emocionante. Uma lição de vida, arte, civilidade. Acesse o site www.bichosdozoo.com.br para ter uma idéia.

Na Clínicas, outra surpresa: nas paredes poemas de Mario de Andrade, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias. Os versos, diretamente aplicados ao concreto, ecoam fortes no corredor dos apressados. Lá pude reler um dos mais belos versos da língua portuguesa:

Valeu a pena?

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.